Eu, Noia. E Paulo Noia.

blog estou na noia

Outro dia um mano comentou no meu Instagram se não tinha um Noia em Floripa. Não captei na hora, mas dia desses recebi uma direct de outro mano que assina Metanoia falando sobre Paulo Noia, grafiteiro de Santa Catarina, que também assinava seus trampos como Noia. Infelizmente o Noia já não está mais entre nós, porém sua essência permanece viva nos seus trampos. Mesmo o graffiti sendo uma arte efêmera, suas cores e traços estarão na mente daqueles que viveram parte da sua história na rua. Eu espero que aqui eu o possa realizar também.

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O trampo e, obviamente, por ele assinar Noia, me instigou bastante. De inicio vi a sua página rapidamente e depois com mais tempo vi vários trampos e detalhes. São insetos psicodélicos, misturados em formas e corpos; evolução notória com o passar das fotos. Bem foda! Fiquei pensando no porquê dele assinar noia, de quando começou a pintar, qual a causa da sua morte... Eu poderia questionar ao cara que o me apresentou, mas acho que esses pensamentos e questionários são a essência da noia. Talvez eu saiba amanhã ou depois, ou talvez não. Sei lá, me instigou. Quem sabe um dia colo novamente em Floripa e dou de cara com um muro escrito Noia ?! Ou se eu assinando NOIA (071) por lá, trarei aos seus amigos os sintomas de saudade... A vida é uma grande brisa.

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 Eu sou noia e ele também. Estamos na noia. Descanse em paz, Paulo.

NOIA - Av. Eliseu de Almeida/Sp


Tem sempre perdido por aqui várias sequências de vídeos. Para finalizar 2014, fui em busca deles. Eis que finalmente resolvo utilizá-los um pouco:

filme: Pixadores

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Há uns sete meses atrás foi lançado o trailer pesadíssimo do filme PIXADORES. Mais novo documentário longa metragem que aborda a pixação através da vida de quatro pixadores: Cripta Djan, William Operação, Biscoito BST (União 12) e Ricardo Cripta. Os quais tem a vida retratada de uma forma profunda, abordando o cotidiano além do contexto da pixação, envolvendo os valores reais de uma verdadeira amizade.

Reflexo da Carcaça

Graffiti, Poesia, Fotografia.

Parei em frente ao espelho. Me cobrei uma postura sincera sobre nada mais que eu mesmo. Confesso-me: estou acabado. Estou triste. Minha feição, deprimente. Meu coração acelerado. Dilacerado. 

Uma dor de cabeça infeliz me atormenta no dia-a-dia causada por um TOC de morder o canto da língua e da boca. A coluna torta pela má postura, pela postura depressiva, pelos pesos carregados nos ombros e na mente.

Acabado. Essa carcaça já fede a carniça, vejo a sombra dos urubus sobrevoando-me. Meu dente podre, meu pulmão preto, meu coração gigantemente-pequeno, meu estomago vermelho-sangue.
Minha pele pálida, doentia. Verde. Estragado.

Como me estraguei. Meus ossos aparentes, mal possuo carne. Minhas forças foram pro saco, minha mente virou oficina. Meu dom nunca existiu e meu retrato é amaldiçoado.

Minhas pernas são tortas, assim como meus braços e arcada dentaria. E alma, corpo e espirito.

Recordo-me que numa conversa um carinha me disse que eu estava na melhor fase da minha vida, sem ao menos me conhecer. Ri de deboche por dentro, esse cara só pode estar brincando comigo. Tudo que ele falava se tornava reticencias para mim. 

Minha vez então de falar, nem me virei para o olhar. Disse apenas que já passei dessa fase, ele então questionou minha idade e minha aparência, que não são nada. Definitivamente, não remetem na-da, nada comparada a minha alma arcaica. Continuava a conversa ao dizer que quero envelhecer cedo demais.   

Ele só não sabe, e eu bem quis explicar sem muito a dizer, que já cansei dessa fase de muitos anos na minha vida, essa fase de merda.

A bebida havia me arruinado totalmente. As noitadas, festas com músicas altas e pessoas extremamente imbecis, que exalam ego para conquistar um acasalamento; o possuir de corpos vazios, os milhares de sorrisos que escondem uma podridão depressiva por dentro quando amanhece... Nada disso mais me pertence. Passado. Não escondo mais a podridão, deixo-a aparente, nos damos razoavelmente bem.  

Ele só não compreendeu que não quero ser a mesma merda de antes, ou melhor, uma merda pior. Sou uma merda querendo evoluir. Um lixo se reciclando. Tentando diariamente. Um dia chego lá, cara. Ou não.

Eu queria mudar o mundo. Merda.


Certa vez peguei uma carona até o metro. Fui em direção a escada rolante para assim entrar. Antes de mim, vi a subir uma senhora, notoriamente pobre, daquelas de traços sofridos. Castigada pela vida. Carregava duas sacolas grandes. Atrás um casal, normal. Ela pisou no degrau e provavelmente decidiu recuar, ou se desequilibrou, não sei. Foi bem rápido. A senhora ficou com uma perna em um degrau, e outra perna em outro, lutando contra o movimento da escada. Vi a hora de despencar. As pernas iam correndo como numa esteira, ou duas esteiras, tentando se segurar com as sacolas. Sem pensar, passei na frente do casal e segurei a senhora, puxando-a para trás. Para fora da escada. Ela me agradeceu e eu subi. Subi cega.

Subi, meio que impressionada, pensando "Como que consegui, tive forças de carrega-la? pô, tinha um cara ali e ele não fez nada. Acho que cobro demais dessa humanidade..."

Já no metro, uma mulher, não tão velha, não tão nova, vendia doce (o que é proibido) e ia colocando no colo das pessoas, mesmo que elas dissessem que não. Ela ia tão rápido que não dava tempo de aceitar o recuso de alguém. Um cara recusou e não adiantou, fez uma cara de nojo e achei aquilo patético. Ok. Estava em pé. Um casal estava sentado de frente pra mim e outro casal de lado. A menina andou rápido, e mais rápido ainda, tirou o moletom de time, soltou o cabelo e sentou no ultimo assento, fingindo ser uma passageira comum. Olhei para o lado e vi os seguranças na ponta do vagão. Saquei. Ela estava altamente nervosa, mas se escondendo atrás das pessoas, com o cabelo cobrindo um pouco do rosto. Fiquei tensa. Os casais riam, aquilo me enojou.

Como sou pavio curto e não nego, falei:

- Não sei, realmente, do que vocês tão rindo! Onde está a graça?

Tentava pensar em alguma alternativa de talvez poder ajuda-la. Já me disseram que quero mudar o mundo, e que por mais que eu queira, não poderei. Sei que não posso mudar o mundo e nem quero me tornar uma santidade. Tenho muita desordem em mim, não sou paz e amor. Acredito que ninguém seja, só finge mesmo. Sou só humano. Não que isso signifique ser algo bom. Não me considerava uma boa pessoa. Só estava querendo ajudar alguém contra a lei. Quem tá errado e certo para julgar? Mas bom, que mal há em vender umas balas em um transporte coletivo? É bem pior quando o canhão tá ali, engatilhado, apontado para sua cabeça, pronto para estourar seus miolos e te mandar pro inferno por ser tão pecador quanto, por quem sabe, o preço de uma caixinha de bala?! Acontece.

O casal vez ou outra me olhava neutro. Os da minha frente. O casal de lado ficava cochichando, olhando para os seguranças. Malditos sejam. As estações iam passando e as pessoas deixavam os pacotinhos nos assentos. Puts, ela vai perder toda a mercadoria... Chegou a estação, eles (o casal cochichador) iam descer. E riam, riam... Segurando várias sacolas do shopping.

Eu viro um bicho, eu sou um bicho.

- Só podia ser uns playboys de merda mesmo. - Ando cobrando demais desses seres irracionais.

Minha estação ia chegando também. Não tinha pacote de bala comigo porque estava em pé. Os seguranças iam permanecer no vagão até a última estação, pois a pessoa, uma hora, iria aparecer. Não queria descer na minha linha, mas precisava. Eu queria mudar o mundo. Merda.


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