#Crônica – Puta Intelectual

16:05

blog estou na noia


Evento de gente importante, ali não era meu lugar. 

O bom homem mais velho e poderoso me oferece caviar e champanhe. Peço uma cerveja. Alguém havia iludido-o de que mulheres mais novas são fáceis de persuadir. Dispenso o caviar, quero acarajé – mesmo que gourmet. 

Ele elogia da cor dos meus olhos à cor do meu batom. Típico.

Pergunta se sou modelo, que sou miss, essas coisas. 

– É, eu já fiz uns trabalhos, mas não gosto desse mundo. Quero, na verdade, ser escritora.

Questiona de uma forma como se eu fosse alguma estupida querendo escrever sobre coisas estupidas. Talvez esperando saber quando eu diria enfim que sou uma puta intelectual. 

No sentido de ser puta e tirada a intelectual. 
Apesar de que sou tirada mesmo. E posso ser uma puta e estupida. 

Coitado. Tô mais pra uma bêbada que quer escrever e odeia explicar sobre o que escreve. 

E bem que eu queria conseguir deixar de transar de graça com caras idiotas e ganhar algum lucro nisso. 

Talvez após dizer isso eu realmente me torne uma puta intelectual. 
Que se foda.

Ele continuou a conversa; eu falei sobre muitas coisas que penso. Era o tempo passar, eu pegar minha grana e beber de graça. 

Um amigo dele, também um homem mais velho e poderoso de negócios – haviam apenas caras afortunados presente, só eu de perrapada, trabalhando – que antes estava ali, retorna e puxa algum assunto fútil para me envolver e o primeiro homem rebate dizendo algo tipo: "Não, o nível dela é outro, o dela é 'O mundo é nosso!'". 

Eles já esperam que nós, mulheres, principalmente em eventos, principalmente abaixo de sua classe, não tenhamos nada a oferecer.

No final, pareceu mesmo intrigado ou interessado ou sei la que porra ou porra nenhuma. Alias, até comentou que estava impressionado, curioso, eu não lembro, não me importa sua analise. 

Enfim, acaba o expediente. Pego mais uma cerveja para beber no caminho e ele entrega-me seu cartão. Eu até cogitei a ideia de enviar alguns dos meus textos para seu email, mas... não. 

O cartão deve estar jogado na minha bagunça. Ou virou piteira.

O mundo é nosso e talvez ele nunca saiba o tamanho, a força, que isso quer dizer. 

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