texto | Ser Ébrio Não é Mole

19:00

estou na noia - ser ébrio não é mole

Aqui e agora, em uma noite quente, como de costume. Aparentando viver em um inferno particular, que queima minha insensatez. Há dois dedos de um vinho de uns dezesseis conto na geladeira; sobra perdida de comemorações não tão emocionais do fim ao começo de um ano. A simbologia de uma virada de folha no calendário, de uma atualização no celular; a sensação de tudo recomeçando... acho incrível como algo pode ter sido tão bem arquitetado diante de uma humanidade imensa. Digo, quantas coisas acreditamos sem ao menos existir uma porcentagem de pessoas que ousam questionar profundamente. A levar em pauta o que na sua maioria jamais saberemos a resposta. Me é incrível. 

Sei que quando o frio surge, doí nos meus ossos, mas o calor me impregna tal agonia que sinto meu cérebro funcionar em uma letargia ridiculamente aterrorizante. Tudo me incomoda, porém hoje, no geral, estou lidando.  

Acordei, comi um pão velho e bebi umas cervejas bem geladas, vendo o céu azulado de uma forma brilhante. Sentada, encosto-me na sacada, deixando minha cabeça inclinada descansando no parapeito, sentindo apenas a maresia que vem da praia logo ali perto. Apreciando a caricia do vento no meu corpo como se pudesse me consolar. E na verdade é um bálsamo mesmo. 

As cervejas esvaziam-se sem muito perceber, enquanto o copo enche rapidamente. Meu irmão chega e não sei porque diabos começamos a conversar sobre Ku Klux Klan, nazismo e sobre o karma. Sei que nessas já sentia a brisa do álcool aproximando e me vi em diversas cenas da nossa prosa. Por um momento permanecemos em silêncio. Logo, algo individualmente nos distraiu e num impulso levantei, indo em direção ao quarto calorento, desmaiando de frente ao climatizador.

Dia de festa na cidade. As pessoas arrumam-se. Geralmente bem coloridas. Eu vejo também preto e branco. E, principalmente, o contraste da desigualdade. Meu pai diz que ainda vou enlouquecer com toda essa culpa, revolta e questionamento de como funciona a sociedade.

E para falar a verdade, eu mesma sinto-o. Sinto estar sendo absorvida. Enlouquecendo-me sobre a disputa que travo da utopia e distopia. Sinto estar carregando, de certa forma, o mundo nas costas. O que talvez responda as diversas dores no pescoço que sinto frequentemente.

É provável que aconteça. Fique louca. Saia bêbada pregando palavras embaralhadas sobre a corrupção. Da forma como escutei de uma alcoólatra que perambulava pela rua, alguns anos atrás, que gritava: "o país inteiro para, para ver a novela" no dia do último episódio de uma novela miserável. 

Espero permanecer louca em meio que minha loucura me leve a revolução pessoal que preciso ter. Que preciso ter de uma forma meio urgente, digamos. Antes que minha fé na ideologia se perca e eu não tenha mais nada do que a pele que cobre um robô. Um robô triste e cansado.

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