Eu queria mudar o mundo. Merda.

07:11


Certa vez peguei uma carona até o metro. Fui em direção a escada rolante para assim entrar. Antes de mim, vi a subir uma senhora, notoriamente pobre, daquelas de traços sofridos. Castigada pela vida. Carregava duas sacolas grandes. Atrás um casal, normal. Ela pisou no degrau e provavelmente decidiu recuar, ou se desequilibrou, não sei. Foi bem rápido. A senhora ficou com uma perna em um degrau, e outra perna em outro, lutando contra o movimento da escada. Vi a hora de despencar. As pernas iam correndo como numa esteira, ou duas esteiras, tentando se segurar com as sacolas. Sem pensar, passei na frente do casal e segurei a senhora, puxando-a para trás. Para fora da escada. Ela me agradeceu e eu subi. Subi cega.

Subi, meio que impressionada, pensando "Como que consegui, tive forças de carrega-la? pô, tinha um cara ali e ele não fez nada. Acho que cobro demais dessa humanidade..."

Já no metro, uma mulher, não tão velha, não tão nova, vendia doce (o que é proibido) e ia colocando no colo das pessoas, mesmo que elas dissessem que não. Ela ia tão rápido que não dava tempo de aceitar o recuso de alguém. Um cara recusou e não adiantou, fez uma cara de nojo e achei aquilo patético. Ok. Estava em pé. Um casal estava sentado de frente pra mim e outro casal de lado. A menina andou rápido, e mais rápido ainda, tirou o moletom de time, soltou o cabelo e sentou no ultimo assento, fingindo ser uma passageira comum. Olhei para o lado e vi os seguranças na ponta do vagão. Saquei. Ela estava altamente nervosa, mas se escondendo atrás das pessoas, com o cabelo cobrindo um pouco do rosto. Fiquei tensa. Os casais riam, aquilo me enojou.

Como sou pavio curto e não nego, falei:

- Não sei, realmente, do que vocês tão rindo! Onde está a graça?

Tentava pensar em alguma alternativa de talvez poder ajuda-la. Já me disseram que quero mudar o mundo, e que por mais que eu queira, não poderei. Sei que não posso mudar o mundo e nem quero me tornar uma santidade. Tenho muita desordem em mim, não sou paz e amor. Acredito que ninguém seja, só finge mesmo. Sou só humano. Não que isso signifique ser algo bom. Não me considerava uma boa pessoa. Só estava querendo ajudar alguém contra a lei. Quem tá errado e certo para julgar? Mas bom, que mal há em vender umas balas em um transporte coletivo? É bem pior quando o canhão tá ali, engatilhado, apontado para sua cabeça, pronto para estourar seus miolos e te mandar pro inferno por ser tão pecador quanto, por quem sabe, o preço de uma caixinha de bala?! Acontece.

O casal vez ou outra me olhava neutro. Os da minha frente. O casal de lado ficava cochichando, olhando para os seguranças. Malditos sejam. As estações iam passando e as pessoas deixavam os pacotinhos nos assentos. Puts, ela vai perder toda a mercadoria... Chegou a estação, eles (o casal cochichador) iam descer. E riam, riam... Segurando várias sacolas do shopping.

Eu viro um bicho, eu sou um bicho.

- Só podia ser uns playboys de merda mesmo. - Ando cobrando demais desses seres irracionais.

Minha estação ia chegando também. Não tinha pacote de bala comigo porque estava em pé. Os seguranças iam permanecer no vagão até a última estação, pois a pessoa, uma hora, iria aparecer. Não queria descer na minha linha, mas precisava. Eu queria mudar o mundo. Merda.


mais fotos autorais: tumblr

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4 Comentários

  1. mas me diga, antes de mais nada...quem é você para julgar um 'playboy de merda'?
    :)

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  2. Talvez isso aki ajude: http://www.buzzfeed.com/daves4/the-universe-is-scary?bffb

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  3. "as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam."

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