Gente das Ruas - Márcia Noel

14:50


Gente das Ruas é a nova categoria onde, em off, vinha e venho escrevendo histórias com pessoas na rua. Pessoas desconhecidas, que compartilharam de uma efêmera prosa. Que me deram muito mais do que imaginam. Pessoas conhecidas, pessoas próximas, ou não... pessoas, histórias, momentos, ruas... Tudo que uma alma observadora puder recriar.


Acordei cedo e sai com a minha mãe, logo cedinho também. Fomos resolver algumas coisas. Tudo resolvido, decidimos andar na avenida até uma loja que vimos de passagem, mas estava fechada no momento - inclusive depois quando voltamos. Caminhamos na avenida para ver outras coisas até o momento em que a loja abriria – o horário anunciava meio-dia- para conhecermos. Voltamos até a loja, mais ou menos, meia hora antes. Cansadas de andar, ficamos em frente esperando abrir. Do lado do portão de acesso à escada da mesma, estava uma mulher: branca, de cabelos levemente grisalhos. Sentada no chão, um carrinho de compras de feira com algumas coisas de um lado, do outro, um par de muletas.

Foi assim que vi aquela mulher.  Ela usava gorro do Papai-Noel e era simpática com todos que passavam: “Deus te abençoe” “Tenha um bom dia”. Olhamos-nos e trocamos sorrisos. Então eu, minha mãe e a Márcia, começamos a conversar. Ah, claro! Essa, de quem vos falo, é a Márcia. E quem é Márcia? Bom, essa foi a minha maior curiosidade. Eu não recordava mais de que minha mãe queria ver essa tal loja. Queria escutar o que a Márcia tinha a falar.

Bom, logo de começo trocamos informações básicas. Aquelas de quando conhecemos alguém. Falar da garoa que passou, e do calor que não havia atacado fortemente.

- Vocês tem o sotaque tão bonito!

Disse a Márcia, percebendo nosso sotaque nordestino. Ela me aparentava ser do sul, então a questionei, mas na verdade ela é Paulistana. Já disse que ela tem 55 anos? Acho que isso não é lá coisa que se diga, mas qual o mal em dizer que uma pessoa tem 55 anos de história? Hum?

Até aqui temos: Márcia, 55 anos. Paulistana. Mora em Guarulhos. Pede esmola na rua. Encontrada na Avenida da Saúde.

- A senhora fica sempre sozinha?
- Fico sempre sozinha. A maioria das pessoas na rua bebe, usa droga, né? Esses vícios... eu não gosto. Ai prefiro ficar assim. Mas quando eu morava na rua, mesmo, era triste... Morei um ano com meu marido. É, eu já fui casada. Ele arranjou outra mulher ai e foi embora, sabe?

“Homens” hahaha.

Agachei-me ao seu lado, e ela continuava:

- Eu consegui um quartinho, aluguel. Cem reais, baratinho, mas mesmo assim eu não consigo pagar. Já não consegui pagar o mês passado, agora tenho que juntar bastante. Eu fui pagar em metades, mas a dona do lugar lá sabe? Ah, ela é uma senhorinha de 88 anos, e falou que era pra dar o dinheiro inteiro ou não dar nada haha. Ela é boa, eu tenho é medo do filho dela. Ele bebe, aparece bêbado as vezes. Tenho medo de ele jogar minhas coisas pra fora de lá. Eu já não posso morar na rua. Tenho diabetes, tive que amputar o dedão do pé, olha... É uma doença silenciosa, né? Ela vai agindo dentro da gente, sem que a gente perceba. Eu via o dedo inchado, mas nunca me importei, dai descobri que tenho diabetes e teve que amputar, porque já estava podre. Eu já não posso morar na rua, muito sujo e a idade. Ainda mais depois de perder o dedo...  
“Deus te abençoe”. Dizia a alguém que passava por nós.

- Essa loja abre tarde, né?  
- Sim, depois dizem que baiano é que é preguiçoso hahaha - Respondi, brincando.

Essa loja, na qual tanto falamos aqui, doaram à Márcia o par de muletas que estavam ao seu lado.

- Ah, e esses dias eu ganhei também esse guarda-chuva...

“Oi gatinho” “Deus abençoe vocês”

- Preciso fazer óculos novos, para reconhecer alguém passando tenho que olhar bem.

Apesar de reclamar das vistas, Márcia é altamente observadora. Um menino, que aparentava ter no máximo 14 anos, passou algumas vezes por nós. E em uma dessas vezes:

- Esse menino... – olha analisando-o.
- Vem passando algumas vezes, né?
- Sim. Há um tempo um molequinho, parecia ter a mesma idade, bem novo. Chegou aqui e falou “É tia, não consegui catar ninguém hoje, vai tu mesmo”. Ai falei: “Que papo é esse, moleque?” “Vai tia, passa logo as moedas ai”. Tinha uns doze reais, fez muita falta, mas tive que dar. Ele disse que se eu gritasse ou falasse com alguém ia voltar e dar um tiro na minha cabeça. Ele só levantou um pouco a camiseta, mostrando a arma.
- É, o país... Ah,ele realmente estava armado!
- Mas mesmo que não estivesse, iria ter que dar. Eu aqui sentada, ele poderia me machucar, me chutar, ma bater, né? Tinham até uns pedreiros na obra dessa loja, mas não perceberam nada porque às vezes as pessoas falam comigo, sabe?

Fiquei ali agachada no chão olhando pra ela. No momento me dei conta de como estava: sentada, com as mãos no rosto, olhando e prestando atenção no que ela contava. Ela me olhou, sorriu e perguntou meu signo.

- Sou de gêmeos. E você?

Ela sorriu mais uma vez. Ela sempre sorria!

- Sou de gêmeos também.
- Por que me pergunta? - questionei.

Estou sorrindo só em escrever sobre e lembrar de que ela me olhou nos olhos e sorrindo um sorriso como se dissesse ‘eu sabia’, me falou:

- Gêmeos é coração. O geminiano sofre. Geminiano se dá demais. Quando ama, nossa, ama demais! Causa um estrago. Ai ele sofre.
- Sem contar que tem mil pensamentos aleatórios 24 horas na mente. Complicado...

Meio-dia. A loja abre e Márcia comenta que logo vai embora.

- Foi um prazer conhecê-la! Você fica sempre aqui?
- Sim. Ai a loja abre e eu vou embora. Fico até meio-dia, até porque não aguento tomar muito sol, minhas pernas incham.
- Imagino, e aqui não tem sombra, né?!
- É, e o sol fica muito forte desse lado.
- Hum, ok...

Ela sorriu.

- Deus abençoe vocês!
- Amém.

Entramos na loja e, pouco tempo depois ao sair, a Márcia já tinha ido. Eu pensei comigo mesma: vou voltar aqui. Vou conversar mais com ela.

Um dia a gente se tromba...

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