Vinte e Poucos Anos, Tantas Histórias

08:01












Sempre escutei com atenção as histórias de vida do meu pai. Ele contava sobre suas viagens e eu cresci com essa vontade de ser livre, de conhecer o mundo. Sem muitas regras, sem compromissos. Ar-condicionado, transito e uma mesa de escritório nunca fizeram parte da minha ambição.

Meu pai tinha um canivete vermelho que eu amava, não sei bem porquê mas gosto de canivetes. (E de isqueiros. E de janelas grandes. E de varandas). Meu pai fazia o favor de mantê-lo em segurança, trancado em seu armário. Eu falava que ele seria meu quando eu crescesse, e que usaria para acampar. Até hoje eu não obtive o canivete. Meu pai diz que se perdeu.

Ele terminara de contar mais uma história.
- Quantos anos você tinha? - Perguntei. Eu sempre lhe perguntara isso, pois não via a hora de chegar a tal idade para aproveitar. Na verdade eu já queria aproveitar a liberdade a muito tempo.
- Hum, uns vinte e poucos. - Toda vez ele me respondia isso, e a gente sempre ria e ria. Ele sabia que não teria como me impedir de sentir sede de liberdade, eu e ele sabíamos que ninguém pôde impedi-lo. Mas a gente ria e ria, talvez de receio.

Cigarros, bebidas, acampamentos, viagens com os amigos... Vinte e poucos anos.

Hoje eu tenho vinte anos, com sensação de ter vivido o que meu pai viveu com 14 e poucos anos em diante. Naquela época meu quarto era repleto de posters, televisão ligada na MTV por horas e aulas cabuladas. Com meu All Star preto encardido, riscado e rasgado. Mais aulas cabuladas. Creio que menos de 14 as histórias começaram a preencer minha vida. Não digo nada como bebidas, baladas. Digo, histórias mesmo. Momentos fortes, bons e ruins. Para perdemos a sanidade da mente é só um estalar de dedos... Conheci pessoas de diversos tipos, eu gostava disso, de diferenças. As pessoas achavam "descolado" andar em uma tribo, e eu não andava em nenhuma. As pessoas se acham "descoladas" andando com pessoas que também se acham "descoladas". Não faz sentido. Gosto de enxergar um mesmo ponto por uma ideologia diferente, e expor a minha também. E assim eu escutei tantas histórias, tantas ideologias e filosofias. Tantos sonhos!

Durante todos esses anos eu vivi tantas coisas, mas algumas vezes tudo isso me parece tão vazio. Tão vivido demais. Assustador.

Em uma história e outra meu pai mencionava amigos que já haviam falecido. Isso pra mim era tão confuso. Eu pensava em como foi pra ele lidar com isso, e como eu lidaria.

Conheci tantas pessoas nesses meus vinte anos...
A medida que o tempo ia passando eu via que perderia as pessoas, querendo ou não.
Fui perdendo pela distância, perdi por apenas não frequentar os mesmos lugares. Por ter saído da escola cara. Por estudar em uma escola de bairro. Pelo meu jeito. Perdi pras drogas.
Perdi porque tinha que perder. Perdi porque nunca me pertenceu.
Perdi pra falsidade, perdi irmãos. Perdi pra morte.

Perdi pra morte.
Hoje eu lembrei do meu amigo, que saudade! Enquanto todos teimavam em ficar no mesmo lugar, conversando e voltando pra casa cedo, nós saiamos por ai, de mãos dadas, andando pela rua, na noite sem qualquer destino. Lembro do dia que tentamos entrar em uma festa de penetra. Momentos como esses me arrancam sorrisos que saem quase como um suspiro agoniante.

No dia 21 de agosto de 2010 iria acontecer o Hip Hop Festival Resistência com os Racionais Mc's, Facção Central e Mv Bill. Um evento histórico do Rap em Salvador. Eu só pensava e comentava sobre esse evento, nós iriamos com alguns amigos. Eu lembro de comentar sobre meu receio apenas por causa do meu esteriótipo, e isso nunca valeu de nada porque eu sou negra demais e você branco demais. Apesar, não fomos ao show tão esperado. No dia do show eu estava ocupada demais conversando com você no seu velório. Você estava dormindo, então eu fiquei do seu lado conversando baixinho, pra não te acordar. Tentei ao máximo não soluçar forte, ou te machucar com minhas unhas ao percorrer seu rosto fino. Cara, a gente viveu tantos momentos bons. Lembrei daquele trecho agora "Parceria forte aqui, era nós dois. Louco, louco, louco e como era"... Será que você ainda se lembra disso? Será que você se encontra presente em espirito aqui de vez em quando?

Tô ouvindo alguém gritar meu nome, parece um mano meu, é voz de homem.

Algumas vezes ao lembrar das histórias eu te enxergo meio embaçado, desconfigurado, desfocado. Eu queria poder ver o teu e o meu rosto enfim. Lembro que algum tempo antes do seu acidente nossa mãe, que também é nossa amiga e nossa filha, pressentiu algo ruim antes de viajar. Não com ela, não, não, não. Com a gente, com mais outros irmãos da gente.

Era uma noite de domingo e estava certo que iriamos sair com mais alguns amigos. Eu desisti de sair de casa, em pleno domingo! Com todo os amigos juntos na rua, eu resolvi ficar em casa (!!!) E outras pessoas sentiram mal pressentimento, e resolveram voltar. Hesitaram em ir.

Segunda-feira. Alguém grita meu nome, voz de homem. Fui ver quem era. Era um amigo que dizia que queria falar comigo urgente. Saí de casa e recebo sua noticia. Se aquela conversa fosse como uma outra conversa qualquer, depois dali eu iria até o ponto de ônibus para ir a escola. Só que estava longe de ser uma conversa qualquer, e daí que você e mais um amigo, vocês que quase sempre esperavam o ônibus comigo, sofrem acidente. Que ironia. Eu não consegui pensar muito bem em nada. Estado grave. Traumatismo. Essas palavras estavam aguardando para serem traduzidas. Fui até a casa do nosso amigo que sofreu acidente também, apenas não tão grave. Depois de ver o estado dele eu pude imaginar como você estava. As palavras foram traduzidas. Meu equilíbrio se foi em lágrimas e lágrimas abaixo.
Eu já não pude sustentar meu corpo. Meu corpo já estava ao chão.

Com o passar dos dias as pessoas retornavam a sua rotina, era tudo tão estranho pra mim. A gente vê as pessoas, mas não as enxergamos. E elas necessitam retomar a sua rotina. Felizes ou mortas, apenas necessitam. Porque necessitam disso para sustentar seu corpo, vivo ou morto. Que seja.

Quando você perde alguém que gosta, seu medo por perder outras pessoas aumenta. E quando você perde alguém novamente é como se já estivesse marcado que isso aconteceria, como um ciclo. Você só não sabe quem será o próximo, você apenas não quer que tenha um próximo.

Hoje eu tenho vinte anos. Logo menos vinte e um. E tenho a sensação de que muito tempo foi perdido, muita coisa foi vivida pra pouco tempo, e muito tempo ainda há.
Vinte e poucos anos de estrada.

Saudade eterna, Michael Carlos Dias. (19/08/2010) RIP.

Assim como Michael, outros amigos se foram. Descansem em paz, Heder e Marcelo.

"(...) Só alivia com tanto momento bom pra lembrar de você. Que alegrava o ambiente onde chegava, sorridente cativava quem estivesse no caminho. Ah neguinho, se você soubesse... Cada vez que eu penso o olho embaça. O sentimento diminui, mas nunca passa. E o destino é alguém com um poder maior que traça. Quando puder diz como é que você tá, tenho fé de que a gente ainda vai se encontrar. Mas preferia não ter que escrever uma dessa, nosso mundo ainda gira, mas faltando uma peça".

03 de março, 2013 - 03:00 / 08:30 am

Escrevo esse texto pra mim e pra você, irmão. 
Sentada na janela, assistindo o dia nascer com uma caneca de café bem forte.



* Trechos retirados da música: To ouvindo alguém me chamar - Racionais Mc's
* Música final: Kamau - Vida

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4 Comentários

  1. Gosto muito de ler textos que não tenho certeza se são "verídicos" ou ficção ... ao chegar no final vejo que é verdade, sentimento, nostalgia ... !

    Embora não seja uma história feliz ... é um belo texto!

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  2. Como é triste saber que um dia pessoas que tanto amamos irá partir para sempre nos deixando apenas a saudade. Lindo texto. Bjus!!

    galerafashion.blogspot.com.br

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  3. Sempre gosto quando você escreve um texto falando do seu pai ou falando de Michael, lembro como se fosse hoje o dia que ele faleceu, um mês depois do meu aniversário de 14 anos. Aquele menino brilhava.

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  4. Muito bom texto, apesar do seu roteiro triste.
    http://alinebencke.blogspot.com.br/

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