A Coruja Cresceu e Voou

10:02

Finalzinho da tarde passava um senhorzinho na rua que empurrava um carrinho de sorvete e balançava o sininho. Tudo era 'inho', inclusive eu, que hoje sinto falta dessa época. Estávamos sempre sujos, melecados, com os pés pretos, brincando e suando. Juntávamos nossas poucas moedas e todos corríamos em direção ao tio. - Tio, tem fiado? - Fiado? Só amanhã. Era assim constantemente. E constantemente riamos desta e outras piadinhas do tio do sorvete, e nada disso envolvia pedofilia ou aliciamento de menor. Voltávamos para brincar, muitas vezes com a roupa suja de sorvete, crendo que receberia mais uma bronca da mamãe. Deixávamos nossas babás exaustas e malucas. Tínhamos clubinho onde meninos e meninas podiam participar, fazíamos piqueniques e guerras de água no playground quando o sindico não estava em casa. Pulávamos muros, sempre aparecíamos com roupas rasgadas e braços, pernas engessados. Brigávamos por besteiras, mas tínhamos humildade para voltar a se falar poucos minutos depois. Tínhamos um assovio-código para nos comunicarmos. Achava que meus pais seriam eternos, que foram feitos um pro outro. Acreditava que divorcio não existia em contos de fadas. Eu e meus amigos colocávamos apelidos na vizinha que brigava quando fazíamos barulho. Ganhávamos presentinhos e doces nos dias das crianças de todos os vizinhos. Tínhamos animais de estimação. Tentamos acampar no jardim, desobedecendo nossos pais. Íamos para escola que ficava a uma quadra de distancia de transporte escolar e não víamos a hora de irmos sozinhos. Essa era nossa ambição de liberdade. Andávamos de bicicleta com toda proteção e longe do transito. Aprontávamos mas respeitávamos os mais velhos, mesmo rindo de alguma mania engraçada por trás. Dormíamos um na casa do outro com o compromisso de ficar até de madrugada acordado e em dez minutos acordávamos com nossas tias nos cobrindo e apagando a luz. Todos eramos amigos e sentíamos ciúmes um dos outros. Mandávamos cartas uns pros outros, mesmo morando na mesma rua ou rua próximas. Eramos Power Ranger, eramos Dragon Ball Z, eramos quem quiséssemos ser. Lutávamos sempre contra o mal, acreditando que o bem sempre vence. Não ligávamos para aparência. Tocávamos a campainha e corríamos. Não nos ofendíamos caso chamassem-nos de pestinha. Tentamos acampar novamente, dessa vez na varanda do prédio mas quando deu meia-noite nossos pais nos acordaram mandando irmos para casa. Tínhamos muitas fotografias, desde a ultrassom. Fizemos aposta de corrida de bicicleta e muitos acabavam com vários ferimentos. Dessa vez nos arriscávamos em meio aos carros. E já íamos sozinhos para escola. Não era tão legal assim. Tínhamos que andar olhando para trás, não aceitávamos mais balas de dia das crianças ou qualquer doce que fosse. Não falávamos com estranhos, andávamos sempre rápido e com medo. Ganhamos celulares ao invés de brinquedos. Os adultos nos olhavam diferente. Não chamávamos mais ninguém de tio, além dos pais dos nossos amigos. Os meninos já não podiam ficar sozinhos com as meninas. Nossos pais tinham ciumes dos nossos amigos. Eu não podia mais jogar bola com meninos. Saímos sozinhos, nos perdemos, fomos roubados, maltratados, nos afogamos, nos salvamos... Crescemos, nosso contato foi se dissolvendo. Uns se mudaram, outros se fecharam. Nosso dialogo com os vizinhos se definia em 'bom dia', eles não passavam mais a mão na nossa cabeça, bagunçando nosso cabelo. Ou não apertavam mais nossas bochechas. Não podíamos mais ser quem quiséssemos ser, e foi nos decretado padrões a seguir. Os assuntos do colégio, tanto dos alunos como nas matérias, era baseado em sexo, drogas e álcool. E conhecemos isso. Os amigos eram precários, poucos vistos. Uns continuam por aí e por aqui, outros mandam emails no natal. Outros já se foram...  

Ah, e o tio do sorvete nunca mais tocou o sino lá naquela rua. 


xx

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3 Comentários

  1. Gostei muito do seu texto, ele me deixou meio nostálgica, meio triste...
    Simplesmente perfeito.

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  2. Seus texto me fez relembrar a infância, adolescência e a minha juventude. Os costumes de antes e do agora, como as coisas mudam não é mesmo, às vezes não sei definir se é bom ou ruim. Belo texto, parabéns.

    Ah! Posso entrevistá-la para a minha tag no blog, vida de blogueira?

    Vou lhe mandar um email com mais informações caso aceite o convite. Beijos flor :D

    http://drerodrigues.blogspot.com.br/

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  3. (comentários respondidos em seus respectivos blogs)

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