Eu só queria um café

10:05


Cada dia em que o despertador me acordava se tornava frustrante existir. Frustração maior não poder arremessá-lo para se espatifar na parede, pois precisaria de um misero despertador novo, e a vontade seria a mesma. Sinto necessidade de foco, de motivos. Só existir por existir não me satisfaz. Um banho meia boca, uma roupa qualquer, rumo à lanchonete da quadra.

Havia pessoas que considerava, digamos, semelhantes. Olhos caídos, olheiras, semblante morto. Bebendo seus cafés e muitas vezes fumando seus cigarros. Assistindo as tragédias que passam na televisão antiga e jogadores milionários no jornal. Assopram seus cafés como se fosse o ultimo suspiro. Sem força, sem vida alguma. Despedem-se das garçonetes e do caixa. Saem. Dão uma moeda de vez em quando pro moço que toca um violão usando um chapéu bizarro de Cowboy, fajuto por sinal. Isso me fazia ao menos dar um sorriso de canto de boca. Espero impacientemente, no meu interior, a garçonete. Uma mulher de cabelos ondulados, ruivos naturais, com sua face cheia de sardas.

Nada mais que previsto, tudo resolve me enlouquecer: pessoas que falam ao mesmo tempo, a televisão alta com seus ruídos, o Cowboy pirata desafinando, a mãe apressada no outro lado da rua com seu bebê que soluça de tanto chorar, xícaras batendo nos pires, o jornal sendo folheado, alguém tentando sincronizar a estação de um rádio estúpido, a porta que abre e fecha; gente que entra e gente que sai... Essa é uma bela forma de começar o dia. Depois de toda tortura a garçonete resolve me atender. A garçonete com suas sardas.

- O que deseja? - ela pergunta.

Bem, eu desejo tanta coisa, mas preciso dizer algo agora. Mas o quê? Ah, meu Deus... Pra começo de conversa eu desejaria que esse tormento acabasse. Por tudo que há de mais sagrado, parem de bater as xícaras nos pires! Desliguem a bosta da TV! Na verdade não sei o que desejo. Talvez alguns despertadores? Tentador. Hm, é... Uma xícara de felicidade, com açúcar. Ou um chocolate amargo? Acho que vestiria bem a situação. Ou eu não desejo nada, ou desejo tudo. Outrora, paz!! Umas cordas novas pro violão do moço, um rádio novo. Xícaras de plástico!!!
A garçonete grita com todas suas sardas:

- Ei, você, o que deseja?!

- Eu? Bem, eu só quero um café.

... Enlouquece viver.

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