Pai você foi meu herói, meu bandido

20:34

Oi, papai.

Hoje é seu aniversário. Eu pensei se te ligaria ou não umas 800 vezes, alguns amigos disseram para que ligasse, eu disse pra ligasse, mas era inevitável não exitar. Lembrei a uns parentes não tão próximos a você, lembrei a todos. Durante a noite resolvi ligar, sem saber o que falar, sem saber pra que ligar. Liguei, a cobrar, chamou chamou e deu caixa. Deu pra perceber que você desligara pelo tempo da chamada. E pensei em cincos segundos se você se "vingaria" e recusaria as ligações como eu tenho feito a vida toda. Na verdade, te recusei a vida toda. Mas você retornou. Não sou boa em lidar com sentimentos e muito menos parabenizar alguém, quanto mais o alguém de quem estava prestes a falar. Você se dirigiu a mim pelo apelido estranho que me chama desde criança e eu apenas consegui dizer: Parabéns. "- Não é possível!... Alguém ligou agora pra te lembrar, não foi? Você não lembraria. Você não gosta de mim". Eu não pensei muito numa resposta. Apenas saiu: "-É, dá pra perceber, né?".  Mas mesmo assim você disse que gostava de mim e que iriamos sair todos no sábado. "Tá, se cuida, tchau".
Somos tão parecidos fisicamente. Tão distante em ideologias. Tão desconhecidos.
Papai, você sempre me sonhou formada, cursando faculdade, graduada em alguma profissão de renome. Que fosse morar no exterior. Que comprasse meu primeiro carro, minha primeira casa. Que viajasse o mundo. E olha pra mim... estou tão longe de alguma das suas realizações e sonhos. Deixei que meus irmãos fossem seu sonho. E eu já quis, muito, te ver longe de mim. Desejei muito sua morte ao mesmo instante em que a temia. Então eu fui crescendo, e nossa distância foi crescendo também. Você falou a minha vida inteira que pareço uma coruja. E que também sou fria... morta. Fui sendo fria e buscava te entender em cada copo. Depois dos copos, as garrafas... Porres atrás de porres. Durante nossas discussões eu percebia o que lhe tirava a armadura e isso era satisfatório para que eu lhe desarmasse nas próximas brigas. E funcionava.  E eu gostava e sentia o sabor do veneno. Você, pai, esperava que uma hora qualquer te abraçasse e dissesse um "eu te amo". E pra mais uma das suas decepções criadas por mim, eu nunca disse. E você me expulsou da sua vida. E eu o expulsei da minha. E eu quis isso. Escutei conversas da família que eu pioraria. Não tenho mais pra onde piorar, pai.

Hoje, você faz 50 anos, e eu sei que está envelhecendo. E eu também.
Hoje eu chorei ao desligar o telefone.
O orgulho me mata e agora estou com muita dor de cabeça.
Minha garganta piorou e estou sem cigarros e bebida.

Eu te amo, pai.

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1 Comentários

  1. Lindo demais. Seus textos oscilam muito... ora estilo Tati ora estilo Blair, mas sempre Mônica. Adorei, mesmo mesmo. *-*

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